quinta-feira, 29 de março de 2007

HÁ MAR

Torna-se imprecisa a dor, a cor, o coração. Há um mar sob a cidade, e ele mina as estruturas. A cidade vai ruir! Ir e vir embora; rumo desconexo ou complexo de rejeição? Quem suporta o saber? Quem? Qual? Qualquer um, não é hora de escolher pato! A pedra no sapato já não dói, porém o pé sangra. Glóbulos perdidos. Lóbulos furados. Em qual orelha se esconde a dúvida do juiz? E quem atirou a primeira pedra? No sapato? Na cara? E o alvo, quem foi? “Táubua de tiro ao álvaro”! Quem canta, seus males espanta! Alho espanta vampiro; corvo foge ao espantalho. Palha! De palha é o fogo! Nero foi tocador de lira, e a pira arde nas olimpíadas. Piadas de mau gosto. É impreciso o sentimento. É vago. Então “sempre cabe mais um quando se usa Rexona”, ou ducha Corona! “Um banho de alegria num mundo de água quente” (rimava com fria!). “Vera gata”; “das que não tem dúvidas”. Eu as tenho! Tinha é pior do que lepra! “Vamos acabar com essa mancha”. Min ama Mancha. Mim ama ela. Amor de índio. Cara pálida. Cadê o Sol? “Cadê as cores do meu país”? Paz! Jaz! Jazz! Tumba! Rumba! Rombo no orçamento familiar, nos cofres da nação. Tricolor (Bahia, Bahia, Baêa!), rubro-negra. Cobra coral; quem mata, mostra o pau! Em público? E o pudor? “Liberdade ao povo do Pelô”. Negritude! Moda ou sábia atitude? Bandolim ou alaúde? Ataúlfo ou ataúde? Poeta que demora demais é Vinicius de Moraes? Infame, essa! De Queiroz. Traz mulher pra nós! Coisa de machista. Que nem “carro de paulista”. Nôrrrmal, mêu! E eu? Quem sou eu? 2.198.665. Pedro Mello. Pedro Bó. “É mentira Terta?”. Incerta essa dor. Pôr a boca no mundo? Pôr um ovo? Ana, Omo, asa, anilina, reviver. Tanto faz de trás pra frente, como de frente pra trás. Anjo não tem costas, sexo, nexo. Deus é diferente de Deus. Zeus era grego. Zorba é dono do 45. Noves fora, nada! É peixe. Sou canceriano. No próximo ano faço 27. Nada, too! E as estrelas são solitárias mas não são vermes. Exame de fezes. Boa merda isso tudo! Não temo o escuro. Quem casa quer casa! Cimento, ungüento, jumento. Cruz nas costas. Postas de peixe sobre a mesa! Semana Santa! Se manda, santa! Gay! Day by day eu vivo e nem sei! Quem é? E quem for, será? E eu com isso? E quem tem nada com isso? Enguiço misturado com feitiço! Vai longe a infância. Vai longe a infâmia; como vai! Vou bem! E a família? Ainda existe família? Que trilho trilhou? Sai da linha; o trem pega! Pega ladrão! Quem roubou a lucidez? Quem apagou a luz? “Fiat Lux”! “Onde estás que não respondes?” O carnaval é livre, mas a polícia senta o pau! As beatas rezam e fazem caridades. A cidade vai ruir! A cidade vai ruir! Há outro mar sobre a cidade. Necessidade de desabafar. Desatar os nós. Atar-nos. Atari. Video-game. Video-clip. Clips. Papel. De besta. 666. Apocalipse. São João. Fogueira, canjica, licor, Jequié, “jequifoi”. Já que fui, fiquei. Não volto mais pro navio. Tem azulejos e amarelejos decorados. Indecorosa sugestão. Gestante! Filho! Criar! Criar! Criar! É preciso criar! Abaixo a estagnação! Tem trem na estação! É preciso estar são! Tem metrô na estação! Silvestre em réveillon! Adiar a viagem de Marcelo Pompom! É preciso liberar o dom! O tom! O dito e o não dito. Criar o conflito. Dar a solução. Soluçar, chorar, sorrir. “E o pão nosso de cada dia nos dai hoje”! E “nem só de pão vive o homem”! A manteiga também é importante. Dante. Livros na estante. “Derrubar as prateleiras”. Festival. Bem e mal. Branco e preto. Certo e errado. “Deus e o diabo na terra do Sol”! Pólos opostos se atraiçoam. Soam os clarins, os bombardins dos querubins. Pós de pirlipimpins. Pós é depois do fim. Atchim. Soneca, Zangado, Mestre, Dengoso e Feliz. Dunga! Vasco da Gama. Cabral. Colombo. Calombo, galo, crista, poleiro, trapézio. Se cobrir vira circo; se cercar...! “Carcará pega mata e come”! Opinião sincera só dá quem tem fome! “O mineiro só é solidário no câncer”! Paulo Cezar! Pinheiro de Natal. Presente, professora! Aluno nota dez! Aos dezessete faz opção! Aos vinte fica sem ação! Aos vinte e seis, decisão! Dos outros, reação! Sai da chuva, menino! Vai ficar gripado! “Mas a chuva é minha amiga e eu não vou me resfriar”! “A chuva voltando pra terra traz coisas do ar!” Torna-se imprecisa a dor, o odor, a oração! Que horas são? 01:50h. Dia? Vinte e seis do sétimo mês do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de hum mil novecentos e oitenta e oito. Faltam doze pra dois mil. E vão comemorar a virada do século no ano errado. 2000! É no final, não no início! E quem vai ligar? E quem liga pra alguém? É muito bonito construir igrejas. E arrotar poder? Podre! Odre de vinho. Adivinho. Cartomante. Ás. Zás. Cabeças rolaram. Danton (The Movie). Demove essa idéia. Belchior. “Como nossos pais”. Trágico ou antropofágico? Mágico é o coelho! A voz da cenoura é demais. Edemas! Porradas! Torradas com chá! Das cinco, escolho nenhuma. É nenhuma, meu rei! Diálogo de balaustrada. E a estrada tá aí. “The dream is over”? Rei morto, rei posto! The dream is over you! “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”! Quem viver verá! Há um mar nessa cidade! Nasci menino e vou morrer, rapaz!
Agradecimentos especiais a: Adoniran Barbosa, Adroaldo Ribeiro Costa, Atari Vídeo Games, Ataúlfo Alves, Banda Mel, Belchior, Caetano Veloso, Castro Alves, Chico Anísio, Club 45 e proprietário, Comitê Olímpico Internacional, Cristóvão Colombo, Dante, Danton, Deus, Duchas Corona, Dunga (o jogador), Eça de Queiroz, Editora Abril, Esporte Clube Bahia, Família Assunção, Glauber Rocha, Governo José Sarney, Instituto Pedro Mello, Jesus Cristo, João do Vale, John Lennon, Marcelo Lopes, Maria Bethânia, Nero (o imperador), Omo ( o saponáceo), os Sete Anões, Otto Lara Rezende, Paulo Cezar Pereio, Paulo Cezar Pinheiro, Paulo Diniz, Pedro Álvares Cabral, Pedro Bó, Peter Pan & Sininho, Prefeitura Municipal de Jequié, Raul Seixas, Sabonetes Rexona, São João, Terta, Tom & Dito, Vasco da Gama, Vasco da Gama (o time), Vera Zimmerman, Vinicius de Moraes, Walt Disney Productions, Zeus e Zorba (o grego), pela inspiração. E à sabedoria popular, por tudo!

HÁ MAR E RIO

Mais uma vez o mar deságua sob a cidade. A cidade vai ruir outra vez. Cada qual que se acomode com seu cada qual. E qual é o qual de cada? De cada escada contam-se os degraus. Cada qual para um passo, uma subida, ou descida. E o mar infiltra sob os pilares de Soterópolis. O perigo existe para todos. E não adianta jogar a sorte no bicho, ou ouvir Chico cantar o soberano maestro Brasileiro. Tom & Jerry. Seria até engraçado ver Jobim caçando Adriani pelas telas do domingo de manhã. De manha também se morre. Se morre de rir. Se morre de tédio. Se morre até de remédio. O que cura também mata e o que não mata engorda. Que nem ovo de codorna. Que nem a maionese que adorna as saladas, as entradas e os canapés. Os pés estão inchados de andar em círculos pela sala de estar. E estou. Ou não estou? To be or not to be? Two bears. Two beers de beber e brindar. Uma para mim, outra para o amigo urso com abraço de tamanduá. O tamanho do A mostra ser letra capitular. Capturar a essência do texto é pretexto para nada entender. Capturar a caça é desculpa para sentir poder. Quem pode, pode, quem não pode pára para aprender. E aprender não depende de escola. Que o digam samba, sexo e futebol. Arrebol de sentimentos, minha vida está sob a cidade e pode ser tragada pelo mar. Netuno que me proteja. Peixuxa que me ampare. Estou em estado de choque e não sei de quantos ampéres. Os Watts, os volts, os voltes e os não vás, os poréns e os talvez, se confundem, se embaralham e eu não consigo pegar nem o morto. Minha mão é horrorosa e eu estou totalmente vulnerável. Não quero damas de Copas, Ouros, Paus ou Espadas. O meu sorriso de Coringa não me tira do problema e não há herói para me salvar. Não há homem morcego, nem o Super-Homem de Gilberto Passos Gil Moreira. Não há nem o Volkswagen blue que o velho Zeca comprou. Nem a rosa vermelha de Juliana estendida no chão. O domingo não é mais no parque, nem tem macaco, praia, carro, jornal, tobogã. Acho que eu estou um saco. E saco quase tudo. E não saco quase nada. Não saco nem o Colt contra William Bonney, o garoto do Oeste. Nada está OK no meu curral. Sou como rês desgarrada nos sertões, da Paraíba à Bahia. Pelejar a peleja do diabo com o dono do Céu é permanecer agônico. Baby down não entende o meu frevo recado e o mar avança sob a city. Black City. Cidade Negra. Downtown. Tão longe, de ti distante, onde foi meu pensamento? Onde foi todo mundo? Mundo, mundo, não quero rimas. Soluço e choro lágrimas sem fim. E como as viúvas de Portugal, eu inundo o mar com minha água e meu sal. E o mar enche e transborda. E ultrapassa a borda das areias do Porto da Barra, derrama-se na Praguer Fróes em busca do Luz da Noite e se perde pelas bocas de lobo, vagando incontinente sob a cidade. E eu avisando a todos que a cidade vai ruir de novo. De novo eu aviso e ninguém me escuta. A labuta é vã e o perigo iminente. Talvez todos só tomem pé da situação quando não der mais pé. E não há arca de Noé, renas de Noel, nem rosas de Pixinguinha. Carinhoso eu sempre fui. E ela me cobra carinho. E eu, cobra coral. Coral nas paredes é lavável. Coral no fundo do mar é impermeável. Recifes de coral. Oh lindas criaturas marinhas. Ostras nascendo do lodo e Ederaldo fazendo a gentileza de cantar um samba bonito na Cantina da Lua. Signo lunar, signo de água e eu a jorrar. Quem não jorra não mama. Mama mia! Errei o ditado. E o cheque pré-datado, pra que dia é? E o dinheiro, de onde é que vem? Vem de bonde ou vem de trem? Ói o trem das sete, das onze, da Estação da Luz, da alegria. Ele promete, mete, mete, garante, de frenética certeza, que o riso será mais barato. Mas sou histrião arpista e não sou de confiar demais. Mas não dispenso o bom humor. Sou feliz porque nasci para ser feliz e não me permito fugir deste destino. Se estou triste, o antônimo de tristeza não será nunca felicidade. A alegria é passageira. E quem é passageiro da alegria pode ficar sem transporte, abandonado na primeira parada. Parei. Beijos afetuosos para quem gosta de afeto. Até a próxima. Fui...

PS: Há tempos russos em que é só tristeza, mas, realmente, parece coca!

NÃO HÁ MAR. SÓ, RIO!

Eu bem que avisei que a cidade ia ruir. O mar invadiu. Eu avisei que ele minava os alicerces. As estruturas cederam e o fim veio rápido demais. Não há mais sonhos vãos, nem pastéis de ontem. Real, só o fim. A banana acabou, para sempre. Livre, o escravo segue nos destroços, sem nada encontrar de conhecido. Não conhece ninguém, nem nada. E devia nadar sempre! É água pra todo lado, é um mar sem fim, o mar do fim. Não é um limite imperfeito, uma pequena marca a delimitar o ontem e o nada. Não é uma marquinha qualquer, um Marquinho qualquer. Fui eu, sou eu, serei. E sereia você não o é. É o não de tudo. É o mar destruindo tudo. E eu avisei! Não adianta mais discutir FHC ou THC, não há por quem, ou porque perder a cabeça, fazer a cabeça. Não há mais. Nem menos. Não há! O que existe de mais triste é fato de não ter por quem ficar triste. Não temos os fatos, as fotos, os focos, as epilepsias, as epidemias. Não há mais motivo para manchetes. Não há globo. Não há glóbulos, hemácias, leucócitos, bacilos ou HIV. Sangrou pela última vez a dor, quando o mar singrou terra a dentro e desfez o que havia. A via principal do meu querer se foi, foi-se. E eu capinei a vida. E a vida era a Clarice de Capinam. E eu a tive toda em toda a minha existência. E eu não mais existo. Ela se foi. Chorando e nua. Lua, Lua, Lua, luar, por um momento achei que te via no céu. Mas não há mais céu. Não há mais seu. Não há mais minha. Não há mais manha. Ou pelo menos quem acredite nela. Já nela, eu sonho, ainda a desesperança de Carolina. E vejo a banda passar falando coisas. E pousa sobre o meu ombro uma pomba. E volto a crer no Salvador. Id Sic Ila Ad Arcam Reversa Est. Soterópolis há de sobreviver. Reviver, rever. Refazer os verbos de trás pra frente e refazer a história, como se o Super-Homem pudesse nos restituir a glória. E a namorada do Peninha tivesse dó da gente. E o herói fosse menos imbecil que o Morcego Vermelho ou o Super Pateta. E ainda houvesse uma teta e mãe para a gente se alimentar do leite bom. Quem sabe uma última vaca profana. Uma última torre de Gaudi, inacabada, esperando que o fim a levasse à conclusão. E eu não concluo nada. Não há definição. Só há contemplação. Só a constatação de que tudo acabou. Eu bem que avisei a ela! Mil versos cantei pra lhe agradar! Gradeei a vida, me aprisionei. Matogrosso fez blues de Mil Perdões. E nada mais encontro para perdoar. É o limite. Mais que o céu do Flávio Cavalcante que ao teu lado eu assistia na TV. Um instante maestro. Parem tudo. Tudo parou. Só Deus sabe o que eu sofri. Um deserto e seus temores, seus oásis e suas miragens. Bebi a água que não havia e vomitei a areia de mim. Fiz praia deserta e desertei. Fugi de todos e fotografei em Fuji Color de cem asas. E não consegui voar. Eles passarão e eu, podado, não passarinho. E na quitanda comprarei as sementes das flores de plásticos que, irracionalmente, também morrem. Titanicamente me levarei, me lavarei na água do mar que tudo ruiu. Eu não morro afogado. Merda bóia. E quanto mais se mexe, mais fede. Fé de quem? Em que? Já fui católico, budista, protestante, tenho livros na estante, todos têm a explicação. Mas não achei. Mais, não. Axé Babaca é o que sou, é o que tu fostes. Postes de cachorro mijar, marcam os nossos caminhos. Os ninhos são por vezes integrais, noutras, instantâneos. Que nem café solúvel. Volúvel, o teu coração só não trai a ele mesmo, mas apenas por não se amar. E há mar! Sob e sobre as calçadas, as ruas, as casas, os casais. Os casos, ocasos, acasos, não se casarão jamais. Já mais tarde, arderá na memória da pela a angústia de um João que busca o perdão de um coração. E perdoa, Pai! Eles não sabem. O que dizem, não merece consideração. Reconsidere a ação e recue o mar. O que se foi, para sempre será. Mas sempre não é todo dia. E se metade de mim é amor, e, a outra metade, também, que a minha loucura seja perpetuada. Tatuada como corações de mães, arpões, sereias e serpentes, na mente dos chicos e das chicas. De Holanda ou daqui. Que se criem novos moinhos para tirar o mar da terra. Para que novos Quixotes possam lutar esse amor lancinante. Que o Rocinante seja um rinoceronte a romper barreiras, salvadores e santo amaros. Que o amargo se torne parecido com o mel, que não afirmo que seja doce, mas que, assim, plenamente, o parece. Padece em mim a dor. Minha dor parece comigo. Independente de migo ou de mim. E Min é a bruxa apaixonada pelo Mancha Negra. E à negra é o jogo final. A decisão já foi tomada. E não dá para botar benjamin ou extensão. Não me fio em mais nada. Só confio em mim. Me ligo e me desligo de tudo. Paradoxo-me em devaneios. Veraneio no inverno que chove dos meus olhos, no inferno paradisíaco que me envolve. Miro, de prima, à vera, a primeira flor que brota no jardim. E sonho que ignoro o mar. E finjo que não houveram mentiras. Faço de conta que um dia existiu o perdão. Que é possível ficar amigos sem rancor. Que, sem eu pedir, a nossa música tocou. E sem dizer seu codnome, beijo a boca que floresce nos meus olhos insones. E para os amigos, para os inimigos, para quem for, sorrio e paro no tempo. Paro no ar. Colho brisas. Beija-Flor, tal qual o maravilhoso Dada, flutuo no ar. Faço gol. Faço Passat. Faço o tempo passar, seguir, voltar. Penso que ainda é um tempo sem a fúria do mar. Me lembro que sou feito à imagem e semelhança. Abuso do poder, refaço tudo. Gasto uma semana e, no sétimo dia, descanso nos braços dela! Há mar, companhia, costa para repousar. Eu, sonho!